18/01/2019

E se a dor dos animais que comes entrasse também na tua casa?

O motivo pelo qual fazemos vigílias?

Para que a verdade atravesse as paredes e portas dos matadouros.

Para que nunca possam dizer que os horrores que os animais passam nas mãos da indústria agropecuária são mentira.

Para que não digam que não acontece em Portugal.

Querem transparência? Vamos a isso.

Na rua, hoje, na Ilha Terceira, à hora do almoço. Para qualquer pessoa ver, uma vaca agonizou durante os 40 minutos que ali estivemos com ela. Os gemidos e roncos de desespero atraíram pessoas comuns que paravam para ver por que duas raparigas estavam debruçadas sob um camião. Por que duas raparigas testemunhavam esta vida. Por que acariciavam um animal moribundo. Por que cantavam para ele. Por que choravam.

A única pessoa que não virou a cara em sinal de normalidade, ao ver o sofrimento atroz do animal, perdão... da Lua, recuou em desespero dizendo: Não consigo ver isto... gosto de animais, não consigo vê-los sofrer.

Nenhuma de nós respondeu alto, mas garanto-vos que na minha mente a resposta foi: Se gosta de animais e não gosta de os ver sofrer, não compactue com esta miséria.

Por muito cruel que soe dizer isto, a Lua só estava torcida neste camião a consumir-se com dores porque as pessoas pagaram para esta indústria explorar o seu corpo.

Perguntei ao proprietário (porque nesta indústria os animais são coisas/produtos e por isso são propriedades) o que tinha acontecido. Explicou-me que no dia anterior (portanto a agonia já durava umas longas horas), a Lua deu à luz um bezerrinho e o seu corpo cansado cedeu. O corpo da Lua cedeu e era possível ver algumas entranhas que saíam pela vagina. Ao dar à luz, já não se conseguiu colocar de pé. O resto já se sabe.

A Lua não iria ter mais do que 1 a 4 horas com o seu filhote. Talvez menos. Mas nem isso conseguiu. O bezerro não teve tempo de beber o colostro que lhe iria garantir algumas possibilidades de sobreviver. O proprietário disse que muito provavelmente não se safava.

O senhor que levava a Lua para o matadouro não estava feliz. Imagino que tenha tido umas horas difíceis e algum prejuízo. Acredito que lhe custe bastante ver um animal assim. Na verdade este meu tom zangado não é para com ele, nem para com nenhum produtor de vacas: é com cada um e cada uma de vocês que está a ler este texto e que ainda consome leite e seus derivados.

É um tom zangado de quem passou a manhã a ver animais chegar a um matadouro. De quem passou a última semana e meia a visitar quintas de leite e olhou cada uma daquelas vacas nos olhos. De quem passou hoje 40 minutos a ouvir gemer e se sentiu impotente e revoltada. Queria eu ter tido a capacidade de lhe tirar a vida e aliviá-la daquele sofrimento. Já sentiram isto? Eu senti. Uma impotência. Desculpem-me o tom zangado. Sei que cada um leva o seu tempo, mas a Lua não aguentou. Não teve tempo.

Estes animais não têm tempo para esperar que apareça um queijo parecido, ou uma receita melhor. Estes animais sofrem e morrem enquanto decidimos o que queremos comer.

Os olhos da Lua nunca largaram os nossos.
Era possível sentir a dor dela só de olhar nos seus olhos. Ela apoiou-os em nós.
O seu corpo estava largado numa carrinha de caixa aberta. Talvez ela estivesse imóvel e não tenha dado para a posicionar melhor, com o peso.
Talvez
Talvez...
Talvez tudo isto pudesse ter sido evitado se...

Estivemos com ela todo o tempo que conseguimos. Filmei e fotografei pouco porque embora vos queira mostrar o que se passa com estes animais, preferi estar com ela, ali, no momento. Não quis que ela sentisse que também eu me iria aproveitar dela. Que iria aproveitar-me do momento. Quis estar com ela, apenas isso. Estar.

Talvez ela não sinta as coisas com esta forma de pensar, humana, mas sente a energia de quem se aproxima, de quem olha para ela, de quem lhe toca. Eu quis estar, apenas.

A única coisa que lhe fui murmurando desejando que acontecesse rápido foi: “Está quase.”

E oxalá tenha sido rápido.

Fica a pergunta:
O nosso apetite justifica tanto sofrimento?


Texto e testemunho de Yolanda Santos, activista do Lisbon Animal Save
17 de Janeiro de 2019

*

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