26/09/2013

O que, ainda hoje, acontece.


Que nojo.
Que nojo.
Sinto essas palavras a ecoarem no meu coração, rufante como um tambor, numa viagem memorial às lições de vida que foram-me arrancando a inocência impiedosamente. Eu era demasiado miúda, demasiado ingénua e demasiado despreocupada para aperceber-me do tabu que era o assunto, mas talvez tenha sido isso que levou-me a despertar mais depressa e a tomar consciência aos poucos. Passaram uns 12 anos e mesmo assim as vozes perseguem-me, sorrindo maldosamente, despoletando a humilhação que ainda hoje sinto na pele.
Se estava chuva ou sol, a caixa das minhas recordações considerou esse dado irrelevante. Lembro-me somente de estar feliz e com um véu cor-de-rosa a tapar-me os olhos, enquanto cruzava-me com pessoas que pareciam-me aquilo que deixaram de me parecer com o descortinar do tempo. Boas, genuínas e altruístas. Um optimismo irracional pelo meu semelhante, fruto da minha pouca experiência que ainda não me oferecera a descobrir a realidade.
Até que o vi. Deitado, esquecido, ferido e esgotado. Os cortes na orelha, no corpo e nas patas pareciam ter-lhe sido propositadamente infligidos. A minha incredulidade levou-me a parar. O véu cor-de-rosa rasgou-se quando olhei-o nos olhos. Retribuiu-me o olhar e não se mexeu. Olhei à volta e notei que as pessoas que passavam seguiam em frente sem sequer olharem para o cão moribundo que ululava por ajuda com os seus olhos tristes. Ninguém reparava nos seus estigmas ou no pêlo sujo, suportando as costelas desnutridas. Aproximei-me e dei-lhe a mão, que lambeu com uma alegria triste e um sofrimento gritante. Peguei com delicadeza na sua pata dianteira esquerda repleta de cortes abertos, cujo sangue empolava-se num casulo de pus branco. Estaquei, impávida, sem saber o que fazer. Eu só tinha doze anos: obviamente que não possuía um veículo para transportar o animal até ao veterinário, obviamente que não tinha sequer dinheiro para pagar qualquer tratamento por mais simples que fosse, obviamente que eu era inútil para ele, obviamente. Fiquei mergulhada num manto de melancolia até o cérebro exigir que eu corresse em busca de ajuda. Os meus passos batiam violentamente nas pedras da calçada, desorientados e perdidos num mar de indiferença: as pessoas continuavam a passar por mim, ignorando-me completamente. O bater do relógio indicava-lhes que as tarefas que tinham para realizar eram mais essenciais do que socorrer um cão vadio. Ir às compras, ao cabeleireiro ou ao café é mais importante do que esse obstáculo cheio de saliva e pêlo. Ele não era de ninguém, pelo que a responsabilidade não era também de ninguém, portanto, para quê preocuparem-se?
Por fim, uma senhora respondeu ao meu apelo para ajudar aquele animal rasgado e torturado. Só uma. No meio de tanta gente, somente uma pessoa dignou-se em não virar as costas ao sofrimento imensurável daquele cão. Uma mistura de gratidão e de desilusão percorreram cada centímetro da minha pele, enquanto o cão saciava a sua fome e eu lhe enrolava os ferimentos com ligaduras desajeitadas. Os minutos voavam a uma velocidade alucinante e eu já estava atrasada para a aula. Contrafeita, tive de deixá-lo, deixando-o nas mãos da bondade da senhora. Iria com ele ao veterinário, o que deixou-me mais descansada. Corri desalmadamente, esperando obter compreensão pela parte da professora. Bati à porta muito timidamente, entrando ruborizada pela correria desenfreada. A professora perguntou-me o porquê de ter eu chegado atrasada. Respondi-lhe a verdade. Nada mais do que a verdade.
Por momentos ela ficou a olhar, especada. Só depois é que reparei que toda a sala estava mergulhada no mais profundo dos silêncios. Os olhos postos em mim aparentavam cepticismo e perplexidade. O silêncio, o estrondoso silêncio, somente cortado pela barulheira da rua que as janelas separavam da sala. E, por fim, a voz revoltada da minha docente:
- Que estupidez: é só um bicho. Ele podia ter-te mordido e depois como era? Devia marcar-te falta por tamanha idiotice.
As minhas faces vermelhas devem ter ficado pálidas naquele momento. É só um bicho. A sério que ela disse aquilo? A minha cabeça não queria acreditar. Permaneci de pé, imóvel e calada, tentando agrupar as palavras que ainda nadavam na atmosfera. Os primeiros sorrisos de troça começaram a desabrochar, esfaqueando-me as costas, a cara, tudo, instantaneamente.
- Lavaste as mãos e desinfectaste-as com álcool?
- Não (…)
- Que nojo, rapariga. Mexeste num cão que anda por aí nas ruas e não lavaste as mãos? Que irresponsabilidade vem a ser essa?
Senti o sangue a gelar. Fiquei totalmente confusa com o esgar de repulsa que a minha própria professora estava a fazer-me. Os sussurros começaram a ouvir-se na sala, encaixando-se com os olhares zombeteiros que muitos dos meus colegas deitavam.
- Vai lavar as mãos e volta só aqui quando estiverem muito bem desinfectadas. Nunca mais mexas nisso, a não ser que queiras apanhar alguma doença. Que coisa mais imbecil a que fizeste, sinceramente.
Nisso. Como se tivesse arrombado um laboratório de microbiologia e brincado com amostras cheias de ébola. Como se tivesse mexido em algo e não em alguém.
Saí, completamente destruída por dentro. Para trás deixei a maior parte dos meus colegas a rirem-se e a comentarem a minha atitude ridícula e anormal, que foi a de ajudar um cão.


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