16/02/2015

Onde está a ilusão? Resposta à imagem “Produtos à base de gado”*




Introdução

Há pelo menos três anos circula na internet, como um viral, uma imagem (postada acima) que lista inúmeros produtos que seriam feitos à base de derivados de origem animal – especificamente derivados bovinos. O seu título é Produtos à base de gado e lista 75 tipos de produtos industrializados que possuem, ou possuíam, uma marca com restos de cadáver bovino e/ou leite e encerra com duas variantes de mensagem ofensiva.

A figura aproveita-se do pouco senso crítico de muitas pessoas, que não se empenham em confirmar a sua veracidade – até porque poucos aceitariam verificar a origem de tamanha variedade de produtos – e da relativa raridade do costume de estudar e pesquisar sobre o que a internet mostra – o que dá brecha, inclusive, às tantas lendas virtuais que aparecem todos os anos. E acaba tanto arrebanhando pessoas para o conservadorismo ético, segundo o qual nada adiantaria em ser vegano num mundo dominado pela escravidão animal, como assustando vegetarianos e veganos, que muitas vezes vêem-se sem argumentos suficientes para rebatê-lo ou mesmo põem em dúvida a própria lógica do seu veg(etari)anismo.

Porém, ele carece tanto de consistência lógica como de honestidade intelectual e respeito à verdade. Porque tanto apela a nada menos que cinco tipos diferentes de falácias como dá a falsa impressão de que todos os produtos da diversidade nele referida carecem de qualquer alternativa vegana.

A origem e as falácias da figura

Convém a todos saber a origem do argumento utilizado pela figura: tudo começou quando, em 2009, um ou mais defensores do consumo de animais extraíram tais informações desta imagem do site do Serviço de Informação da Carne, entidade lobista defensora dos interesses de criadores de gado bovino e de indústrias frigoríficas.

Então criaram essa figura, sabendo que muitas pessoas, diante de tamanha diversidade de produtos, aceitaria, sem qualquer questionamento incisivo ou pesquisa verificadora, que a pecuária bovina dominaria a indústria de tal forma que não haveria para onde correr no que toca ao consumo dos 75 itens citados.

O folheto assustou muita gente e continuará assustando por algum tempo, mas não resiste a uma análise céptica. Tanto porque, conforme este artigo mostra mais adiante, há alternativas e/ou substitutos de todos os produtos listados como a própria imagem possui erros lógicos comprometedores.

São cinco as falácias existentes na linha de raciocínio transmitida pela figura:

a) Ad hominem: Consiste em ofender explicitamente o interlocutor ou tentar desqualificar o seu argumento por alguma suposta característica da pessoa que em nada tem a ver com a consistência e validade da colocação dela. É a falácia mais visível ali, na ofensa final dirigida aos veg(etari)anos.

b) Falácia do espantalho: Faz uma interpretação errada da ideia opositora, atribuindo-lhe equivocada ou maliciosamente argumentos facilmente criticáveis ou refutáveis que na verdade ela não defende. Essa falácia aplica-se ao facto da figura tentar imputar ao veg(etari)anismo um falso ponto fraco, que seria a suposta falta de opções para a miríade de produtos industrializados nele citada.

c) Distorção de facto: Como o nome diz, distorce um facto na tentativa de desqualificar determinada ideia, crença ou comportamento. A figura faz a distorção ao transformar o facto de que há ou havia variantes ou marcas dos 75 produtos listados contendo um ou mais ingredientes de origem bovina na falsa colocação de que todas as marcas ou variantes dos produtos referidos contêm algum ingrediente derivado de bovinos.

d) Generalização precipitada: Tenta aplicar ao todo uma regra que só se aplica a uma parte. A imagem passa a falsa (e assustadora) impressão de que todas as marcas ou variantes de cada produto possuem ingredientes bovinos, quando na verdade apenas parte delas o contêm – ou mesmo, em alguns casos, não se fabrica mais com ingredientes de origem animal.

e) Non sequitur: Lança argumentos desconexos cuja conclusão não segue a premissa. A linha lógica seguida pela figura é a seguinte:
Premissa: Estes produtos contêm ou continham variantes ou marcas dotados de ingrediente(s) oriundo(s) de certa parte do corpo bovino.
Conclusão: Logo, todas as variantes ou marcas destes produtos contêm ingredientes oriundos de tais partes do corpo bovino.

Porém, conforme este artigo mostra, a conclusão acaba na realidade, não seguindo a premissa.

Alternativas dos produtos listados na figura Onde está a ilusão?

a) Cérebro

- Creme contra envelhecimento: Há opções veganas de cremes, e mesmo as empresas de cosméticos que ainda utilizam ingredientes de origem animal estão cada vez menos utilizando ingredientes provindos de abate, conforme as suas respostas a consumidores em SACs. E é possível inclusive retardar ou controlar o envelhecimento da pele com a própria alimentação, com refeições ricas em antioxidantes e também vegetais (em especial frutas) ricos em vitaminas A e C, licopeno e ómega-3 (chia, linhaça, etc.), os quais aumentam a produção corporal de colágeno.
Procure no Círculo Bio, na Loja Vegetariana e na Efeito Verde para produtos deste sector.

- Remédios: A imagem não diz qual(is) ingrediente(s) é(são) extraído(s) do cérebro bovino. Mas é evidente que nem todo o remédio usa derivados do cérebro bovino. Além do mais, em situações mais sérias, os remédios são excepção no boicote vegano, uma vez que o seu não uso pode acarretar em sofrimento e até morte. O modo de vida veg(etari)ano não exclui a possibilidade de doenças, mas, quando bem planeado, diminui a probabilidade de ocorrência de diversas doenças, sendo um factor positivo de prevenção.

b) Sangue

- Massas: É difícil encontrar uma massa à base de trigo que contenha um derivado do sangue bovino entre os seus ingredientes. Geralmente os ingredientes listados do macarrão básico são: farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico; corantes naturais urucum, betacaroteno e cúrcuma; e estearoil-2-lactil-lactato de cálcio (que, apesar da presença do radical lact-, que lembra leite, não é de origem animal). Alguns poucos incluem ovos na composição e há marcas que utilizam outros ingredientes, mas é bastante difícil hoje em dia encontrar aqueles que tenham derivados de sangue.
Nota do blogue (Particularmente, nunca encontrei em Portugal massas que tivessem mais ingredientes do que sémola de trigo duro. Algumas têm ovos - muito poucas - mas é uma questão de ler os rótulos.)

- Misturas para bolo: Há opções sem ingredientes de origem animal.

- Corantes: A imagem não fala quais são os corantes que possuem derivados de sangue. Porém, o único corante que realmente consta em listas de ingredientes de origem animal em sites pró-veganos não é de origem sanguínea mas sim do insecto cochonilha (corante carmim, presente em alguns produtos rosados ou avermelhados). Há muitas alternativas vegetais ao carmim que são usadas hoje em dia na indústria, como o Vermelho 40, o Vermelho Crepúsculo, o corante de beterraba e a paprica.

- Tintas (e tinturas): A imagem não especifica o que da tinta é de origem sanguínea, nem a origem elementar dos supostos ingredientes sanguíneos – se do plasma, das hemácias, dos leucócitos ou das plaquetas –, nem quais tipos de tinta o contêm. O ingrediente das tintas e tinturas que pode conter derivado sanguíneo é o fixador, mas existem fixadores de origem vegetal, como a resina acrílica, que é usada por algumas marcas.
Poderá encontrar alternativas veganas na Lush, Efeito Verde e da marca Herbatint.

- Adesivos: Conforme as páginas que falam de produtos de origem animal, como o blogue da Superinteressante, os adesivos em questão são colas, e não, como passa pela imaginação do leitor da imagem, figurinhas colantes e etiquetas. Há colas sintéticas que atendem a indústrias que usam esse tipo de substância adesiva e também ao consumidor final. Assim, embora seja necessário recorrer aos SACs sobre se cada pasta adesiva é ou não sintética, não são todas as empresas que usam derivados de origem animal.

- Minerais: Informação vaga demais. Não diz o que são esses minerais nem onde são usados. Por isso não dá para pôr em mente que “minerais usam ingredientes de origem animal”.

- Remédios: A imagem dá a entender que todos os remédios usam excipientes ou princípios activos originados do sangue bovino. Mas, como é de se imaginar, é absurdo pensar que todo o remédio, ou a maioria deles, usa tais ingredientes, dada a diversidade de medicamentos existente no mercado. E o caso dos remédios é excepcional para os veganos, visto que em casos de doenças fortes não podem ser boicotados, sob pena de sofrimento e até morte.

- Material de pesquisas laboratoriais: Não diz quais materiais (Produtos químicos? Recipientes de vidro? Materiais metálicos?) seriam esses. Não dá para inferir dessa imagem que “todo o material de pesquisas laboratoriais tem ingredientes vindos do sangue bovino”, pelo que a informação é vaga demais.

c) Cascos e chifres

- Adesivos: Vide b) Sangue.

- Plásticos: A informação é duvidosa, visto que provavelmente baseia-se no facto de que os primeiros materiais plásticos sintéticos eram produzidos a partir de cascos, chifres e marfim de animais – mas tais ingredientes foram superados com o tempo, conforme a página 46 do livro Plásticos: características, usos, produção e impactos ambientais, publicado por Tania Piatti e Reinaldo Rodrigues por meio da UFAL.

- Alimentos para animais de estimação: Este é um dos poucos produtos de que há real dificuldade de se encontrar alternativas veganas. Porém a imagem engana-se, uma vez que muitas marcas de ração usam farinha de ossos e não de cascos e chifres, mas ele não inclui rações para pets entre os produtos contendo derivados de ossos.
Em Portugal já existe uma alternativa vegana da marca Amì, tanto para cães como para gatos.

- Alimento para plantas/fertilizantes: Nem todo o fertilizante é produzido com resíduos de matadouros ou esterco. Há alternativas vegetais para jardinagem e agricultura, incluindo folhas, frutas e flores – que decompõem-se e converterem-se em material orgânico ao dispor das plantas vivas – e serapilheira, além de adubos exclusivamente minerais.

- Filme fotográfico: Está cada vez mais em desuso com a adesão crescente dos cinemas ao uso de projectores digitais e à própria consolidação das câmaras digitais e telemóveis com câmara. Hoje quase não se usa mais câmaras analógicas e as digitais já possuem um bom preço - e mesmo os telemóveis básicos de hoje em dia tiram fotos.

- Champôs e condicionadores: Há alternativas veganas muito conhecidas, e isto sem contar com várias receitas caseiras divulgadas pela internet e alternativas mais ecológicas.
Alguns exemplos: Novex (várias opções), Lush (várias opções), Faith in Nature e Bio Extratus (quase todos os produtos).

- Placas de esmeril (lixas de unha): O ingrediente que levava a substância à base de cascos e chifres era o aglutinante - a cola que fixa a superfície áspera e torna coesos os seus grãos. Porém, esse aglutinante de origem animal vem sendo substituído por cola PVA (acetato de polivinila), obtida a partir da polimerização do acetato de vinila, que por sua vez origina-se pela reacção química entre dois ingredientes de origem não-animal, o etileno e o ácido acético ou etanoico. O que significa que, hoje em dia, nem toda a lixa de unha à base de esmeril usa cola de origem animal, o que, no entanto, ainda faz os veganos terem que consultar SACs para saber se usam PVA ou cola animal.

- Laminações: Como usam adesivos (colas) para unir duas ou mais folhas de papel e/ou cartão, repete-se aqui a informação já dada antes. Conforme as páginas que falam de produtos de origem animal, como o blogue da Superinteressante, os adesivos em questão são colas, e não, como passa pela imaginação do leitor da imagem, figurinhas colantes e etiquetas. Há colas sintéticas que atendem a indústrias que usam esse tipo de substância adesiva e também ao consumidor final. Assim, embora seja necessário recorrer aos SACs sobre se cada pasta adesiva é ou não sintética, não são todas as empresas que usam derivados de origem animal.

- Papéis de parede: A mesma situação das laminações: usa colas para aderência, portanto vale a informação já dada sobre adesivos.

- Compensados (chapas de madeira): Idem, visto que compensados também podem vir com chapas coladas umas às outras.

d) Órgãos

- Cordas de instrumentos: Há alternativas feitas à base de nylon, aço, carbono ou sintéticas com revestimento em metais – como alumínio, ouro e prata.

- Cordas de raquetes: Há alternativas sintéticas, como cordas de poliéster e híbrido de copolímero, poliéster e teflon.

- Hormonas, enzimas, vitaminas e outros materiais médicos: Há alternativas sintéticas no mercado que podem ser obtidas à livre escolha do vegano. O único problema para os veganos aparece quando tais produtos são fornecidos no hospital, onde a possibilidade de escolha é reduzida.

e) Leite

- Adesivos: Vide b) Sangue.

- Plásticos: Apenas alguns plásticos são produzidos a partir da caseína, como botões, cabos de segurar guarda-chuvas e punhos de talheres. Porém, mesmo para esses casos há alternativas como o polipropileno. Também há alternativas de polipropileno para cabos de guarda-chuva e cabos de talheres, assim como para outros produtos.

- Cosméticos: Há alternativas, cada vez mais numerosas, que não usam leite nem as suas proteínas na composição. Como são muitas, dependendo do tipo de cosmético, e é fácil encontrá-las na internet e mesmo nas lojas, não é necessário listá-las aqui.

- Remédios: Novamente retorna-se à grande diversidade de medicamentos existentes no mercado. É possível deduzir que apenas alguns possuem ingredientes derivados do leite na sua composição excipiente ou activa.

f) Esterco

- Fertilizantes, azoto e fósforo: Recapitule-se a descrição dos alimentos para plantas mencionados no item c) Cascos e chifres. Nem todo o fertilizante é produzido com restos de matadouro ou esterco. Há alternativas vegetais para jardinagem e agricultura, incluindo folhas, frutas, flores e serapilheira. Além de adubos exclusivamente minerais – de onde se extrai também o azoto e o fósforo para uso agrícola, ornamental ou em jardins.

g) Gordura

- Chicletes: O ingrediente derivado de gordura é a glicerina, que compõe a goma-base. Porém, existem marcas que não usam glicerina animal, como as pastilhas Gorila.

- Velas: É cada vez mais difícil encontrar gordura animal entre os ingredientes nas velas. Hoje em dia são facilmente encontradas no mercado velas que usam apenas cera de parafina, derivada de petróleo. Já há inclusive velas de emulsão vegetal – à base de soja, arroz, palma ou girassol.

- Detergentes: Há alternativas veganas como a L'Arbre Vert. Também existem alternativas caseiras divulgadas pela internet.
Procure nas lojas Celeiro e também no Círculo Bio e na Efeito Verde.

- Amaciadores: A L'Arbre Vert também é uma alternativa vegana. Também é possível fazer amaciador artesanal, comprando-se glicerina vegetal para incluir na composição.
Idem.

- Desodorizantes: Há muitas alternativas sem glicerina, como a Jason. Como opção de desodorizante roll-on sem glicerina há diversas marcas da Avon e da Nivea, mas essas empresas deixaram de ser recomendadas desde que que elas passaram a  realizar testes em animais na China, pelo que a Jason permanece como uma boa alternativa. A Lush também tem desodorizantes veganos.
Pode encontrar produtos da marca Jason nas lojas Celeiro.

- Cremes de barbear: Também são compostos de glicerina – e alguns contêm lanolina. Nada impede que as empresas utilizem glicerina vegetal. Uma óptima alternativa é ensaboar a pele a ser barbeada com sabonete de glicerina vegetal. É possível usar também aparelhos de barbear eléctricos, já que eles não requerem a aplicação prévia de creme.

- Perfumes: Há muitas alternativas industriais sem derivados de origem animal, sem contar nos milhares de perfumes artesanais extraídos de flores.

- Alimentos para animais de estimação: Vide c) Cascos e chifres.

- Cremes e loções: Algumas marcas de cremes e loções contêm glicerina animal, mas uma variedade cada vez maior de empresas vem utilizando glicerina vegetal ou mesmo não usando mais a substância. Dependendo da função do creme ou loção, é relativamente fácil encontrar opções veganas no mercado.

- Giz de cera: Está cada vez mais difícil encontrar gizes de cera com gordura animal. Hoje utiliza-se muito mais o óleo da cera de parafina no lugar.

- Tintas: Algumas empresas não usam ingredientes de origem animal. Há também alternativas para tintas de outras categorias (de pintar paredes, metais, madeiras, tecidos etc.).

- Óleos e lubrificantes: Há opções de óleos lubrificantes, inclusive em forma de graxa, que contêm compostos de gordura vegetal – conforme descrito aqui –, mas nesse caso é exigida a consulta aos SACs e rótulos.

- Biodiesel: O biodiesel também pode e é feito sem usar animais, porém as monoculturas para produção da alta demanda por combustível acabam com a diversidade da fauna. Um dos poucos produtos que realmente dão dor de cabeça aos veganos, visto que é usado por alguns transportes públicos. E, aliás, mesmo o seu eventual uso em carros é desencorajado por razões socioambientais.

- Plásticos: Nesse caso, plásticos como as sacolas comuns – o que não inclui muitas sacolas biodegradáveis – usam gordura animal para diminuir o efeito estático do material. Mas, como nem todo o supermercado, mercearia e mercado usam sacos plásticos biodegradáveis, há três alternativas para se lidar com esses locais: ecobags, carrinhos de feira – que não demandam embrulhar os produtos comprados no supermercado – e sacolas biodegradáveis compradas em quantidade pelo próprio consumidor. Para produtos plásticos além das sacolas comuns, estão-se multiplicando os plásticos biodegradáveis que não contêm gordura animal.

- Impermeabilizantes: Há opções que não utilizam ingredientes de origem animal. O vegano pode consultar cada uma delas – inclusive via SAC – para perguntar sobre impermeabilizantes livres de restos de animais.

- Cimento: Muitas marcas de cimento não contam com gordura animal.
Leia aqui como o cimento é comumente produzido.

- Giz: O giz é basicamente feito de gipsita, água, corante (no caso do giz colorido) e, em muitas marcas, plastificante. Provavelmente algumas marcas utilizam gordura animal como ingrediente do plastificante. Há marcas sem plastificante, bom para uso não escolar – mas é necessário verificar rótulos ao comprar. Além disso, o giz como ferramenta de trabalho constante está sendo cada vez menos usado – nas escolas já é frequente a utilização de lápis-pilotos e quadros-brancos.

- Explosivos: Esta categoria de produtos virtualmente não é utilizada por consumidores comuns. Geralmente apenas empresas e o governo são interessados em utilizar explosivos - e mesmo assim é um único explosivo específico que utiliza derivado de glicerina animal: a nitroglicerina, ingrediente principal da dinamite. Pólvora, TNT e C4 não contam com ingredientes de origem animal.

- Fogos de artifício: Contêm ácido esteárico, que pode ser de origem animal ou vegetal, mas os veganos tendem hoje a não usá-los mais visto que tem-se expandindo a conscientização em torno das consequências do seu uso para pássaros e animais domésticos – os cães têm muito medo de fogos, e podem desesperar ao ponto de fugir de casa ou mesmo sofrer ataque cardíaco, bem como os pássaros podem ser mortos na explosão aérea dos fogos.

- Palitos de fósforo: O misterioso aglutinante que consta entre os ingredientes do palito de fósforo é um derivado de gordura animal. Todavia, há alternativas, pelo menos na produção de alimentos: o acendedor eléctrico dos fogões modernos, bastões produtores de faísca e isqueiros.

- Fertilizantes: Vide c) Cascos e chifres.

- Anticongelantes: Há anticongelantes que não contêm gordura animal: dependendo do produto, utiliza-se metanol, etilenoglicol ou propilenoglicol.

- Isoladores: O óleo mineral é o isolador eléctrico que usa gordura, podendo ela ser de origem animal. Mas há alternativas de isolantes líquidos que não usam gordura: askarel, óleos de silicone, parafina (pastoso), pasta de silicone e resina Kopal.

- Linóleo: Provavelmente foi incluído na lista porque continha gordura animal antigamente. Mas hoje o linóleo conta com óleo de linhaça, não mais com gordura animal, como o ingrediente gorduroso.

- Borracha: Provavelmente foi incluída na lista pelos pneus, que são borracha vulcanizada e contêm ácido esteárico, que pode ou não ter origem na gordura animal. Mas há uma opção vegana bem conhecida no mercado: a Michelin usa ácido esteárico de origem vegetal.

- Tecidos: Desonestamente a imagem não afirma quais são os tecidos. Os tecidos mais comuns – que inclui virtualmente todos aqueles usados pelos veganos – não contam com gordura entre os seus ingredientes, visto que são compostos apenas por fibras naturais (algodão, sisal, et cetera.) ou sintéticas (poliéster, poliamida, et cetera.).

- Remédios: Poucos contam com gordura animal no excipiente. E, como já dito antes, só em casos extremos é que os veganos não podem boicotar remédios.

h) Pele

- Gelatinas: Há gelatinas 100% vegetais ou algais, como o ágar-ágar. O sagu também é uma alternativa similar, feito de fécula de mandioca.

- Aromatizantes: Há na internet inúmeras listas com ingredientes de origem animal mostrando quais os aromatizantes a ser evitados, pelo que não se torna num problema.

- Papéis-de-parede: Provavelmente refere-se a papéis-de-parede feitos com couro mas há inúmeras alternativas, sendo muitas delas de papel.

- Adesivos: Vide b) Sangue.

- Remédios: Apenas os medicamentos de cápsula contam com colágeno, oriundo de gelatina animal – alternativas com cápsulas vegetais podem ser encomendadas em lojas de produtos naturais.

- Doces e confeitos: Não faltam doces veganos em Portugal e no mundo. Os confeitos provavelmente foram incluídos pela presença de colágeno em algumas marcas, mas nem todos possuem colágeno na composição.

i) Pêlo

- Filtros de ar: Já há algum tempo não são mais utilizados pêlos de animais nos filtros de ar modernos. Os condicionadores de ar actuais usam filtros com chapas e telas de alumínio e de nylon.

- Pincéis: Poucos pincéis possuem pêlos bovinos, geralmente extraídos das orelhas dos bois e das vacas. Existe uma boa diversidade de alternativas de cerdas sintéticas no mercado.

- Feltro: É evitado pelos veganos, que usam outros tecidos para todos os fins a que o feltro serve.

- Isoladores: Provavelmente foram incluídos pela existência de isoladores eléctricos feitos com feltro. Há inúmeras opções de isoladores sem nada de origem animal, como já foi citado em relação aos isoladores líquidos.

- Gesso: Apenas antigamente eram usados pêlos de animais para deixar a massa do gesso mais consistente.

- Tecidos: A mesma situação do feltro. Veganos usam tecidos vegetais ou sintéticos.

h) Ossos

- Açúcar refinado: Já é bastante evitado entre os veganos por causa dos seus efeitos nefastos à saúde, e hoje em dia no processo de fabricação é utilizada cal no lugar do carvão de ossos pela maioria das empresas.

- Carvão: Entrou na lista provavelmente por causa da existência do carvão de ossos. Como alternativas há o carvão mineral e o vegetal.

- Fertilizantes: Vide c) Cascos e chifres.

- Vidro: Antigamente obtinha-se o óxido de cálcio que compõe os vidros a partir de ossos de animais. Hoje esse mineral é obtido através do calcário.

Considerações finais

Com tudo o que foi mostrado – tanto as falácias como as alternativas ou substitutos dos produtos listados – podemos ver que a vida dos vegetarianos e veganos não é uma ilusão, ao contrário da crença comum dos conservadores de que haveria enormes dificuldades na obtenção de produtos industrializados sem ingredientes de origem animal e isso faria o veganismo não ter sentido.

Mesmo que em algum desses produtos realmente não houvesse saída para os veganos, não lhes haveria problema. Porque, como estão crescendo cada vez mais em números e, em sua grande parte, fazem militância pela preferência das indústrias pela produção de alternativas livres de restos ou secreções de animais, já se caracterizam como uma força a demandar uma postura de não compactuação com a escravidão animal intrínseca à pecuária, organizando boicotes, formando demanda de mercado e, dependendo do caso, criando alternativas extra-industriais.

E há também outra questão: é ingenuidade acreditar que, por não existirem pessoas 100% veganas, as pessoas não poderiam ser nem mesmo 1% veganas.

Afinal de contas, onde está a ilusão?

A imagem abaixo mostra os pesados custos da pecuária, que são camuflados por pessoas como os autores da figura Produtos à base de gado, os quais, por sua vez, insistem em não aceitar essa realidade e refugiar-se na ilusão de que não haveria nada de ruim em consumir animais.

 

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