05/05/2015

Lacticínios: sim ou não?



«De todos os alimentos, nenhum suscita tanta controvérsia ou apego emocional como os lacticínios. Já dei palestras nos quatro cantos do Mundo e sempre foi fácil passar a informação sobre a carne, o açúcar ou os produtos químicos. Há sempre pessoas que contestam ou que não estão totalmente de acordo, mas raramente alguém recomenda indiscriminadamente estes alimentos.

Algumas das discussões mais emocionais em que participei, tiveram a ver com o facto de eu não só não recomendar o uso regular de lacticínios, como achar que eles são prejudiciais para a saúde quando consumidos com frequência.

Em primeiro lugar, devemos considerar que somos um mamífero e que, como todos os mamíferos, devemos ingerir leite materno até uma certa idade, para depois sermos desmamados e não voltarmos a beber leite. É isto que acontece com todos os animais mamíferos e nós, seres humanos, não deveríamos ser excepção.

De um ponto de vista científico, o número de investigadores que acha que o leite e seus derivados não são bons para a saúde cresce todos os dias. Muitos nomes reconhecidos na comunidade científica internacional têm escrito e realizado alocuções públicas em que questionam o uso dos produtos lácteos, afirmando que toda a publicidade feita aos mesmos não tem base científica e serve meramente os interesses de grandes empresas comerciais.

Considere os seguintes factos:

— Países do Mundo com maior consumo de lacticínios per capita: Finlândia, Suécia, Estados Unidos da América, Inglaterra.
— Países do Mundo com maiores índices de osteoporose per capita: Finlândia, Suécia, Estados Unidos da América, Inglaterra.
— Ingestão de cálcio na China rural : metade da ingestão da população americana.
— Fracturas ósseas na China Rural : 5 vezes menos do que na população americana.
Estudos mais recentes demonstram não só que a ingestão de produtos lácteos não reduz a incidência de osteoporose como, pelo contrário, pode contribuir para a mesma.

Apesar de a osteoporose não ter que ver apenas com o consumo de cálcio, este é necessário. Segundo o “American Journal of Clinical Nutrition,” a absorção de cálcio de diferentes alimentos é a seguinte:

Couve-de-bruxelas – 63.8%
Brócolos – 52.6%
Rama de nabo – 51.6%
Couve – 50%
Leite de vaca – 32%

Portanto, não só é possível obter cálcio a partir de muitos outros alimentos, como o mesmo é tão bem ou melhor assimilado nestes do que no leite de vaca.

Gostaria de frisar que não sou contra o consumo de lacticínios, apesar de achar que é perfeitamente dispensável. Publicitar o seu uso como sendo essencial para a saúde, nomeadamente para a osteoporose é, no mínimo, revelador de falta de informação e parece-me também ser pouco ético. Não sou cientista mas tento, tanto quanto possível, manter-me actualizado sobre estas matérias e, até hoje, não vi qualquer estudo onde tal conclusão fosse evidente e inequívoca, antes pelo contrário .

Citando Walter Willet, professor em Harvard, este corrobora com factos aquilo a que chama o “Lado Negro do Cálcio e dos Produtos Lácteos” . Para ele, as principais razões para evitar o consumo de leite e produtos lácteos são:

— Intolerância à lactose: A maioria da população mundial é intolerante à lactose, o açúcar presente no leite de vaca. A maioria das pessoas, após os 4 anos de idade, perde a capacidade de fabricar lactase, o enzima responsável pela digestão da lactose, e apenas 25% da população mundial consegue digerir bem o leite.

— Gordura saturada: A gordura presente nos lacticínios é gordura animal saturada, responsável pela criação de placa e consequente obstrução dos vasos sanguíneos que está na origem da maioria das doenças cardiovasculares modernas.

— Cancro na próstata: Em nove estudos independentes sobre o desenvolvimento do cancro na próstata, o factor mais forte e consistente ligado a este tipo de cancro foi o consumo elevado de lacticínios. No maior destes estudos o “Health Professionals Follow-up Study”, os homens que bebiam 2 ou mais copos de leite por dia tinham mais do dobro das hipóteses de desenvolver cancro da próstata avançado ou com metástases do que aqueles que não bebiam leite nenhum.

— Cancro nos ovários: Existe um número significativo de estudos que apontam para a hipótese de o cancro nos ovários estar ligado ao consumo de produtos lácteos e, apesar de tais estudos não serem conclusivos, a ligação parece ser demasiado forte para não ser considerada.

— Antibióticos e hormonas de crescimento: Tal como mencionado anteriormente, relativamente à carne, os antibióticos e hormonas ministrados às vacas acabam por estar também presentes no leite e restantes produtos lácteos.

Tenho a noção de que os dados apresentados sobre o leite e produtos lácteos são perturbadores, em particular quando a maioria da informação veiculada pela publicidade e comunicação social nos diz que estes alimentos são essenciais. O leitor deve, no entanto, considerar que a informação veiculada pela publicidade pode não ser consubstanciada por factos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a FDA (Food and Drug Administration) proibiu as empresas produtoras de lacticínios de colocarem nas embalagens qualquer publicidade referente às vantagens destes alimentos porque, de acordo com as regras da FDA, é obrigatório corroborar as frases publicitárias com factos concretos e estes nunca são apresentados.
Não pretendo com esta informação semear o pânico ou ser o arauto da desgraça. Penso no entanto que é meu dever alertar e mostrar o outro lado da moeda, para que o leitor possa questionar o que às vezes parece ser inquestionável, informar-se e assumir tomadas de decisão conscientes sobre o seu estilo de vida e alimentação.

Eu também pensei durante muitos anos que os produtos lácteos eram absolutamente fundamentais e que nunca poderia prescindir deles mas as melhoras que obtive quando deixei de os usar foram tão grandes que neste momento não só não sinto qualquer vontade de os ingerir como os considero totalmente dispensáveis.

A “ideia” de que, mesmo após o período de aleitamento, necessitamos de beber todos os dias um copo de uma substância imaculadamente branca é apenas uma crença da civilização moderna ocidental sem qualquer consubstanciação objectiva.»


Imagem | Fonte

Sem comentários:

Enviar um comentário