11/07/2018

Maternidade vegana com a Sónia Dias 💙 A Minha Mãe Vegana


Desde a primeira entrevista que apaixonei-me por esta rubrica e cada vez mais adoro fazê-la. É fantástico conhecer mães tão inspiradoras e que decidiram ser um livro aberto para mostrar como é deliciosamente libertador viver bem sem matar ninguém. Só o facto de estarem a educar um pequeno ser humano mais empático e compassivo já é uma forma de salvar milhares de animais. Porque a bondade, quando plantada, nem o vento mais forte da indiferença consegue arrancá-la do solo. E quando cresce dá frutos, que por sua vez plantarão novas sementes. E assim continua este maravilhoso ciclo de amor e de justiça.
Hoje apresento-vos a Sónia Dias, mãe do rechonchudo Lucas e autora d'A Minha Mãe Vegana. Abraçou o veganismo há quatro anos e o marido seguiu o exemplo no Outono do ano passado. No seu Instagram partilha sobre a sua rotina, as suas paixões e, claro, sobre maternidade sustentável e sem exploração animal. Se ainda não a conhecem, venham daí  



Fala um bocadinho de ti e do teu blogue.

Para quem não me conhece o meu nome é Sónia, tenho 26 anos, sou licenciada em Nutrição, vegana e mamã de um bebé lindo de 14 meses.
O blogue surgiu por insistência do meu irmão, que achava que já era mais do que hora de organizar todas as receitas que eu partilhava pelo Instagram.
Apesar de ter imensas receitas, não sou uma food blogger: o blogue é uma extensão de mim e dos temas que acho interessante serem "falados" e partilhados. Escrevo sobre parentalidade, nutrição, sustentabilidade...



Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?

Tornei-me vegana no dia 27 de Novembro de 2014, uma data da qual nunca me vou esquecer. No dia 26, à noite, assisti ao documentário Cowspiracy e logo ali decidi parar de comer carne. Nessa mesma noite fui pesquisar tudo e mais alguma coisa sobre dietas vegetarianas e, após horas a fio de pesquisas, percebi que deixar de comer carne não era o suficiente e decidi tornar-me vegana.
Parei de consumir produtos de origem animal da noite para o dia, literalmente: parei por mim, pela minha saúde e pelo meio ambiente. Mas se parei por mim, hoje continuo por eles... aqueles que não têm voz, aqueles que sofrem, os animais.



Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?

A minha alimentação durante a gravidez foi bastante descomplicada. Eu tive muitos enjoos durante quase toda a gestação: então, basicamente comia o que me apetecia e passava melhor.
Tomei um multivitamínico para grávidas 100% vegetal e tentava que, pelo menos, uma das refeições do meu dia fosse rica em ferro, porque durante a gravidez as necessidades diárias de ferro aumentam consideravelmente.
Parei de beber café e outros tipos de bebidas estimulantes (chá verde, guaraná...), parei de usar alguns superalimentos (spirulina, chlorella, maca...), evitei a canela (sobretudo nos primeiros 3 meses de gestação) e desinfectava as saladas e algumas frutas porque não sei se sou imune à toxoplasmose.


Arte de Catie Atkinson


Aproveitando para partilhar sobre outras culturas, como é ser mãe e vegana na Suíça?

Para já, tem sido fácil: o Lucas ainda é muito pequenino e é fácil mantê-lo nesta pequena bolha. Em relação à aceitação, tanto cá como em Portugal há cada vez mais pessoas veganas com voz activa e isso começa a incomodar algumas pessoas. Aqui, começa a ser recorrente notícias relacionadas com o veganismo, desde estudos, reportagens e algumas notícias sobre grupos anti-especistas que vandalizam talhos (apesar de eu ser mais da paz e amor, e gostar de passar a mensagem dessa forma, consigo entender esse movimento, pois grande parte das revoluções começaram pela luta e revolta).
Também começam a surgir leis mais protectoras dos animais, principalmente em relação à forma como são criados e abatidos... mas a estrada ainda é longa e, no meu ver, não existe forma correcta de matar um animal que não quer morrer.
Tal como acontece em Portugal, há cada vez mais restaurantes vegetarianos, principalmente nas grandes cidades, e mais produtos vegetarianos no mercado; só que, aqui, todos levam o símbolo Vegan, o que poupa muito tempo na hora de ler e verificar rótulos.



Sendo nutricionista, o que dirias aos pais que querem oferecer uma alimentação totalmente vegetariana ao(s) seu(s) filho(s) e não sabem bem por onde começar?

Digo sempre para voltarem às raízes e comerem comida de verdade. Não tem como errar comendo batata, leguminosas, frutas, sementes, cereais completos, legumes, hortaliças e frutos secos oleaginosos.
Em adultos, acho importante fazerem, sejam eles veganos ou não, análises de sangue regulares ou pelo menos uma vez por ano, de forma a ajustar a dieta e suplementar se necessário. Nas crianças e bebés, é recorrente suplementar logo uma vitamina ou outra como, por exemplo, vitamina D, vitamina B12 e outras do complexo B. Assim, também evitamos estar a picar o bebé se ele estiver saudável e a desenvolver-se bem.



Escreves sobre parentalidade positiva, na qual estás a criar e a educar o teu filho. Do que se trata?

A parentalidade positiva é uma filosofia de educação baseada na conexão, respeito, empatia e afeição. Talvez a principal diferença seja o respeito pela criança, seja ela de que idade for: elas são indivíduos merecedores de respeito agora e não só quando crescerem.

Vejamos alguns exemplos práticos para ser mais fácil perceber:

Dizer “Não! Não mexas nisso! Não faças isso!” Não custa nada dar uma explicação e são bons hábitos de comunicação que vão sendo criados. Podemos, em vez disso, dizer: “Agora não dá porque a mãe está cansada”; “Vais-te magoar se brincares com isso”; “Já é tarde, brincamos amanhã”. É melhor do que tentar ir contra eles: como as crianças e bebés conseguem ser muito persistentes, é preferível mudar o foco da atenção oferecendo uma actividade ou brincadeira diferente. O NÃO deverá ser deixado para uma situação de perigo iminente, sendo algo que os deixe alerta e paralisados.

Dizer “Pára de chorar/Não chores”. Para além de estarmos a reprimir as emoções do bebé/criança, estamos a desvalorizar os seus sentimentos. Se ele está a chorar é por algum motivo: ou se magoou, ou está cansado, ou está frustrado e a melhor forma de lidar com isso é com empatia. Podemos antes dizer: “Sei que estás cansado”; “Vi que te magoaste,  já vai passar...”

A ideia que mimo e colo a mais vai estragar a criança ou que vai ficar muito apegada a mãe. Primeiro, mimo nunca é demais e não deve ser confundido com falta de educação. Segundo, se não for apegado à mãe vai ser apegado a quem? À tia que só vê uma vez por semana? Terceiro, e no meu ponto de vista, crianças criadas com apego são por norma mais aventureiras e independentes. Sabem que podem explorar à vontade e que, se por ventura algo correr mal, terão sempre ali a sua “tábua de salvação”. Penso que uma criança mais carente de afectos, mimo e colinho será com certeza mais insegura.

Obrigar a dar beijinhos quando a criança não quer. As crianças são genuínas por natureza e vão demonstrar afecto quando estiverem preparadas para tal e quando o sentirem. Elas são donas do seu corpo e obrigar a dar beijinhos, abraços ou a ter qualquer tipo de contacto físico contra a sua vontade não é correto e não deve ser incentivado.

Deixar o bebé chorar. Quem nunca ouviu dizer “Deixa o bebé chorar para ele aprender/Isso é só birra/Deixa que passa”? Eu, enquanto mãe, é impensável deixar o meu filho a chorar sem o atender, vai completamente contra o meu instinto e hoje já há vários estudos que comprovam o quanto pode ser prejudicial para o desenvolvimento emocional do bebé deixá-lo a chorar. Porquê? Porque ele vai sentir-se desprotegido e isso gera imenso stress no bebé, stress esse com que ele ainda não sabe lidar a nível cognitivo.
Outro exemplo muito comum, infelizmente, são pais que tentam fazer com que o bebé aprenda a dormir a noite toda (algo que vai contra a natureza do bebé e nem é recomendado) e para isso usam muito a estratégia de deitá-lo sozinho no berço e deixá-lo lá a chorar até adormecer. Infelizmente vivenciei um caso desses 😞 A mãe, no fim, toda orgulhosa a dizer “Viste, adormeceu!” e eu a pensar: Adormeceu por esgotamento. Dormiu porque libertou uma série de endorfinas para combater o stress gerado e adormeceu por puro cansaço. Adormeceu sabendo que está sozinho.
E para quem diz “Ah e tal, eles são bebés, não se lembram”, eu respondo: quase todas as nossas acções têm consequências na educação e carácter dos nossos filhos. Um bebé que é deixado a chorar crescerá como uma criança mais desconfiada, insegura, com baixa auto-estima, mais ansiosa e com tendência a isolar-se. Daí ser tão importante isto do colinho, do apego, do vínculo. Atendam os vossos bebés nos seus momentos de stress: toda a birra tem uma causa, se está difícil para vocês também não está a ser fácil para eles. Lembrem-se que não estamos a criar “só um bebé” mas sim os adultos de amanhã e queremos adultos bem resolvidos, confiantes e capazes de gerir sentimentos.


Arte de Catie Atkinson


Para ti, qual é a importância de educar os mais pequenos a respeitar os animais?

Ao respeitar o meu filho ensino-o a respeitar o próximo, seja o próximo um ser humano ou animal. As crianças, por norma, gostam de animais e é fácil criar essa ligação de respeito e empatia. Atrevo-me a dizer que a maioria das crianças só consome produtos de origem animal porque são formatadas a dissociar o animal do "bife", "picanha" e "hambúrguer".



Cada vez há mais pais a abraçar o veganismo e a transmiti-lo aos seus filhos: todavia, nem todos os familiares aceitam e tentam colocar entraves. Que conselhos dás aos pais que enfrentam esse tipo de situação?

O meu filho, as minhas regras. Temos de deixar isso bem claro.
Na teoria deveria ser simples assim, mas não o é. Algumas pessoas têm muita dificuldade em ser assertivas ou lidar com confrontos, outras estão dependentes de outros familiares (exemplo: avós que ficam com as crianças enquanto os pais trabalham) e têm que gerir melhor os conflitos. O melhor será educar os familiares em relação ao veganismo, explicar que podem ocorrer reacções alérgicas caso a criança ingira algo não vegetariano e que é uma questão de respeito: cada um deverá respeitar o espaço e a decisão do outro.
Depois, o que deverá ser feito é educar a criança para o facto das outras pessoas não comerem igual a ela, explicar de onde vem a comida, como os animais vão parar ao jardim zoológico... as nossas crianças conseguem perceber, melhor do que qualquer adulto, o porquê disso tudo ser errado.



Partilha uma das receitas preferidas do Lucas.

De momento é, sem dúvida, esta receita de panquecas 😊 ■


Receita das panquecas de banana e espelta

Recomendadas para bebés a partir dos 6 meses

Ingredientes:

1 banana madura;
1 chávena de leite vegetal (240ml);
1 colher sopa de óleo de coco;
1 chávena e meia de farinha de espelta integral;
1 colher chá rasa de fermento.

Preparação:

Colocar a banana, o leite vegetal e o óleo de coco na liquidificadora/bimby e triturar.
Juntar a farinha e o fermento.
Misturar tudo muito bem e cozinhar as panquecas em lume médio baixo.



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8 comentários:

  1. Eu senti na pele o que é não ter (muitas vezes) colo na infância e sei bem as suas implicações e como é difícil superar certas coisas. Daí ter-me emocionado ao ler este texto.

    Parabéns a ambas.

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    1. Por isso é tão importante quebrar esse ciclo e apostar na parentalidade defendida pela Sónia.
      Beijinho, Rita❤

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  2. Vou experimentar a receita, parece bastante apetitosa :)

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  3. Uma entrevista muito inspiradora, sem dúvida. E, claro, como educadora, gostei imenso da valorização dada à criança, porque, de facto, eles são seres merecedores dela em todas as fases da sua vida. Não é por serem bebés/crianças que merecem menos consideração da nossa parte

    Beijinhos*

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  4. P.S. Tenho que experimentar essa receita de panquecas :D

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  5. Gostei muito de ler a entrevista, é importante darmos atenção às crianças, o que elas sentem importa e há coisas que, se ignorarmos, podem levar a consequências negativas no futuro, como a Sónia refere.

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